Já era tempo de contar parte da minha vida. Eu nasci no ano de 1972, em janeiro, dia 2 de janeiro, para ser mais exata. Lembro pouco da minha infância, digo dos primeiros dois anos em que morei no sul do país, em Curitiba. Meus pais se mudaram para Barra de Itapemirim, ES, e lá eu passei a maior parte da minha vida, digo, até meus 14 anos. Barra é uma cidade pequena, próxima a Marataízes; na verdade, uma é quase um bairro da outra. E, a pouco tempo, estava “na moda” passar o carnaval lá.

Bem, na minha adolescência, tinha poucos namorados, quero dizer, aos dezoito anos, apesar de ter muitos pretendentes, achava os homens de minha idade meio bobos. Sonhava em ter homens mais velhos, me imaginava perder a virgindade com alguém de quarenta anos em um iate. Bem, minha família é quase a família perfeita; tinha um irmão mais velho que me defendia, um pai e uma mãe que me educaram nos melhores valores da vida. Não estou sendo cínica, meu pai realmente era uma pessoa admirável; seus conceitos eram extremamente liberais para a época e ainda são. Foi o único que me entendeu.

Bem, como eu ia dizendo, eu tinha dezoito anos e estava cheia de sonhos quando se mudou para minha cidade uma amiga do Rio. Ela tinha 18 anos, seu nome era Carla. A conheci na praia; ela estava tomando banho de madrugada, bem cedo, numa praia que eu costumava ir por ser meio deserta. Fiquei olhando ela atrás de umas pedras; ela era linda, a pele morena, queimada de sol, cabelos pretos, feições leves. Estava escondida atrás da pedra quando ela se levantou e lentamente tirou seu biquíni; ficou nua e mergulhou na praia. Não posso lhe dizer o que senti ali. Eu gostava de homens, mas acho que foi amor à primeira vista.

Saí correndo para casa, fiquei pensando nela o resto da semana. Tive febre; meu pai, coitado, passava sempre de noite ao lado de minha cama, até que um dia falou: “- Meu amor, você está assim por causa de algum problema, não é?” Eu balancei a cabeça confirmando. “- Posso ajudá-la, ou é uma daquelas coisas que você vai ter que resolver sozinha?” Respondi “Sozinha, pai”. Ele riu e disse: “Isso é bom; os problemas geralmente nos fazem crescer, e os melhores são aqueles que ninguém pode resolver por nós. Só não demore muito, está bem? Geralmente eles só fazem crescer…”

Depois que ele me disse isso, fiquei um bom tempo sem dormir, sabe, pensando sobre o assunto. Decidi que na verdade eu tinha fantasiado tudo, que de manhã eu iria procurá-la e iria ver que tudo não passava de criancice minha. À noite, eu tive um sonho com nós duas nuas, rindo, passeando de mãos dadas na cidade. De manhã, eu fui até a praia, mas não a vi; suspirei aliviada, já ia embora quando olhei no chão e vi um biquíni; peguei-o, era dela, sem dúvida. Não sei como tive certeza, mas na hora eu tive; então tudo me veio à mente, o seu corpo, o jeito como tinha tirado o biquíni, as curvas de sua bunda…

– Oi.
Era ela; ela estava atrás de mim, nua, me olhando. Quando a vi, acho que gritei. Imagina, ser pega cheirando o biquíni. Ao mesmo tempo, ela estava tão linda. Eu não me contive e chorei, chorei muito. Ela me pôs no colo, nua daquele jeito, e me pediu pra falar o que houve. Eu lembrei do que meu pai disse e contei tudo, tudo o que eu estava sentindo. Ela ouviu tudo com um sorriso. Levantou-se, vestiu-se com o biquíni, virou para mim e disse: “- Meu amor, você é muito nova e nem me conhece, mas sentimentos não respeitam idade nem distância. Eu acho que você está só iludida comigo, mas vamos fazer um trato: eu acabei de me mudar, não conheço quase ninguém; me apresente as pessoas, aos lugares, vamos sair juntas, como amigas, como irmãs por um tempo. Depois, quando eu achar que for o suficiente, vou lhe perguntar só uma vez se quer ser algo mais. Se responder ‘não’, nesse dia, vamos continuar sendo amigas o resto da vida. Está bem?”

Eu sorri, fiz que sim com a cabeça. Ela foi embora e disse: “Me encontre as duas na praça, vamos fazer compras”. Larissa, os dois meses que se seguiram foram ótimos; nunca tinha tido uma amiga como ela. Fazíamos tudo juntas; minha família a adorou; a família dela parecia gostar muito de mim. Dormir na casa dela e ela dormir lá em casa já era normal depois da segunda semana. E até meu irmão já estava apaixonado por ela… Engraçado, disputar alguém com meu irmão, com meu ídolo…

Um dia, estávamos a sós na casa dela, trancadas em seu quarto; estávamos rindo de algo… Ah, sim, de um programa idiota de TV… Ela olhou para mim e me beijou na boca. Fiquei estática. “- Quer continuar só minha amiga?” “- Não; quero você de todas as formas?” “- Tem certeza, minha criança?” Eu não respondi, somente me levantei e tirei toda a roupa. Ela se levantou, pôs minha roupa de novo e disse que tudo iria ser sem pressa. Ela me beijou e me acariciou; durante dias foi só o que nós fizemos. Só dois meses depois, no meu aniversário, é que ela finalmente tirou minha roupa e a dela, e pude sentir o seu corpo me tocando, tocar seu corpo, ser lambida, ser amada, ser beijada…

Vivi com ela até os quatorze anos; fizemos muitas loucuras; nos amamos na praia, numa escola, até no púlpito de uma igreja. O que eu mais gostava era das cobranças da escola; toda vez que eu tirava uma nota baixa, levava uma surra. Já que ela me ajudava a estudar, bom, como sempre fui boa aluna, sempre podia deixar uma nota mais baixa para poder levar umas palmadas sem precisar repetir de ano. Ela, quando percebia que eu tinha feito de propósito (eu sempre jurava que não, fazia beiçinho, pedia para ela…), me surrava mais ainda, até me ver chorar de verdade. Não adiantava; cada vez eu queria deixar mais notas vermelhas… Só não repeti de ano porque não queria ser chamada de burra, nem decepcionar meus pais. Mas ficava excitada só de pensar na surra que eu poderia tomar… Adorava o jeito que ela me mandava sentar em seu colo, abaixava minhas calças, tirava minha calcinha e espancava minha bunda.

Bom, mas nem tudo dura para sempre. Quando completei quatorze anos, algo muito ruim me aconteceu. Quando se tem doze, treze anos, nos achamos as pessoas mais espertas do mundo. Bem, eu achava que ninguém percebia o que acontecia entre nós duas, e algumas vezes abusava; era óbvia demais. Eu tenho vinte e sete anos; imagine numa cidade pequena, a mais de dez anos atrás, o que seria duas meninas viverem do jeito que vivemos…

Bem, deixe-me falar da família da Carla; a mãe morreu quando ela era mais nova. O pai era um militar durão que tinha sido transferido repentinamente para Cachoeiro de Itapemirim, uma cidade a uns 30 minutos de carro de lá. A madrasta dela era uma pessoa legal e tinha 2 filhas; duas menininhas de 6 e 7 anos, meio-irmãs de Carla. As garotas eram a paixão dela. Podia-se dizer que ela se dava melhor com a madrasta do que com o pai.

Poucos dias depois que eu completei quatorze anos, estava tudo dando certo para mim; a expectativa de entrar no segundo grau me deixava muito excitada. Mas Carla estava triste. Era seu aniversário naquele final de semana e a mãe de sua madrasta tinha sofrido um acidente; todos de sua família tinham viajado para lá; ela estava sozinha em casa no dia de seu aniversário. Decidi fazer uma surpresa; pedi a um amigo que tirasse ela de casa; fui à delegacia, pedi emprestado duas algemas para o delegado, amigo de meu pai; disse que ia fazer uma festa para Carla e que aquilo seria uma piada; ele me emprestou e me ensinou a usar. Depois que eu insisti muito. Ele era como um tio para mim; era muito amigo meu e de minha família.

Bom, fui até a casa da Carla; numa cidade pequena, fora da época de férias, ninguém se preocupa em trancar bem a casa; entrei por uma janela; fui até o quarto dela; antes, deixei na mesa da sala um pequeno chicote para bater em cavalos, um daqueles de mão, que se usa para bater no lombo do cavalo; junto com um cartão: “Feliz aniversário; lembre-se, não experimentar seu presente no dia em que o ganhou dá azar!”

Tirei minha roupa, espalhando ela pela casa até a porta do quarto; coloquei um baby-doll, só ele, sem calcinha; colei com fita gomada, uma daquelas fitas grossas, a minha boca, dando uma volta com ela atrás da nuca; meu cabelo preso num rabo de cavalo; algemei minhas pernas e, depois de sentar na cama e de algumas tentativas falhas, consegui algemar meus pulsos atrás das costas. Deitei-me e esperei; estava excitada demais, mas como ela estava demorando muito, acabei dormindo. Despertei com o ranger da porta; ouvi passos; pararam na sala, como eu esperava. Demorou uma eternidade, mas ouvi os passos recomeçarem até o quarto. Minha cara de felicidade deu lugar a de espanto quando vi, parado na porta, seu Rubens. O pai da Carla não tinha como me cobrir; como falar. Ele tinha nas mãos o cartão e o “presente”. Ele ficou estático; aparentemente, sua indignação deu lugar a cólera num momento; ele partiu para cima de mim gritando: “Toma seu presente, piranha! Vadia! Vagabunda!” Ele me batia com a chibata de um jeito tão forte que eu não pensava ser possível! Não sabia que podia doer tanto apanhar assim. Eu chorava de dor, mas isso não fazia ele parar. Minhas costas, minhas pernas, minha bunda; parecia estar tudo em carne viva!

Ele jogou o chicote para longe; me levantou pelos braços e gritou comigo: “Piranhinha! Você precisa é de um homem vagabundo! Vou te mostrar o que você precisa, vadia!” Ele cuspiu na minha cara; me forçou a ficar ajoelhada na cama enquanto eu ouvia o barulho do zíper abrindo; tentava fugir, mas ele era mais forte; eu ia ser estuprada! De repente, ele parou; houve uma briga; me virei; eram Carla, meu “tio” Marcos, o delegado, e o seu ajudante. Os dois resolveram passar para dar um abraço nela; pensaram que ia ter uma festa realmente. Ouviram o barulho, pois seu Rubens tinha perdido toda a linha e falou tudo gritando. Carla havia chegado naquela hora.

Nos longos momentos em que o ajudante do meu tio, nem me lembro o nome dele, procurava pelo chão as chaves das algemas, me lembrei de um Natal; estava assistindo com meu pai a história de Cristo quando eu disse: “Pai, se ele era tão forte, por que não deu porrada em todo mundo e foi embora dali?” Depois que meu pai parou de rir, ele me disse: “Filinha, às vezes é preciso ser muito mais do que forte para suportar uma dor que não é sua, por causa das pessoas que amamos.”

Quando tiraram a fita da minha boca, eu mandei que soltassem ele. Todos ficaram mudos, inclusive ele. Mesmo com o corpo todo dolorido, eu levantei e falei: “Esperem todos lá fora, menos você, tio Marcos. Precisamos conversar.” Ele se sentou na cama ao meu lado; depois que relutantemente, todos saíram. Minha voz estava com uma força que eu nunca tinha visto antes!

– Tio Marcos, olha só; eu tenho que te contar uma coisa. Eu descobri que o seu Rubens veio transferido para cá porque o superior dele descobriu que ele estava sendo amante da mulher de um general lá do Rio; para abafar tudo, mandou ele para cá (não era verdade; ele tinha vindo justamente porque não queria trair a esposa). Então, como desde que eu conheci a Carla, eu sou apaixonado por ele; venho fazendo chantagem, obrigando ele a dormir comigo. Hoje ele se irritou e me deu uma surra; merecida. Ele resistiu a mim por muito tempo…

Quando ele me viu assim, na cama, pronta para ele, não aguentou mais a pressão e fez o que fez. A culpa foi minha, só minha. Me perdoa; te peço não contar pra ninguém; vamos deixar isso para lá; a única culpada já foi muito punida. Olha só como é que eu estou…

Meu tio nem me olhava… Quando me olhou, nunca me esqueço o seu olhar; algo como “você me magoou e decepcionou muito”. Depois de mais de uma hora de sermões, fomos liberados; todos nós. Seu Rubens ficou calado o tempo todo. Cheguei em casa e fui direto para cama. No meio da noite, Carla entrou no meu quarto pela janela.

– Está melhor?
– Estou.
– Legal o que você fez… Se não fizesse isso…
– Seu pai seria preso, expulso das forças armadas, que é a vida dele; a situação de vocês ia ficar muito ruim; você, as pestinhas (falávamos assim, mas de um modo carinhoso, das irmãs dela)… Todas sofreriam; e também fiz por mim… Todo mundo da cidade ia falar: “Olha o Casal das esquisitas!” Iam cuspir em nós, nos tratar mal, ofender… Fazem isso por muito menos…

– Acha que não vão fazer isso comigo?
– Dali ninguém vai contar o que houve; você sabe…
– Não sei…
– As notícias ruins voam logo…
– Dorme comigo.

Dormimos abraçadas na cama; não fizemos nada. De manhã acordei cedo; o corpo todo dolorido; abri meu cofrinho em silêncio; sempre fui econômica; tinha juntado um dinheiro muito bom para uma adolescente… Pus algumas coisas numa mochila; dei um último beijo na Carla; deixei um bilhete para os meus pais dizendo que ia passar uns dias fora; que precisava muito disso; mas que era um problema só comigo, com mais ninguém; que eu tinha que pensar na minha vida de fora dela…

Peguei um táxi até a rodoviária de Cachoeiro e, sem dificuldades, peguei um ônibus para o Rio de Janeiro. Aí começa minha vida… Mas isso eu só conto se você me escrever dizendo se quer continuar ouvindo ou não. E me conte algo de você… Beijos.